Deixar aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos

10/07/2011 21:32

Deixar aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos - O Evangelho S. Esp., cap. XXIII (Estranha moral), itens 7 e 8. Rio de Janeiro, 14 de Junho de 2011.

 

            Deixar aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos é um tema a princípio curioso de um capítulo igualmente de nome curioso em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Curioso para aqueles que lhe não penetraram a essência. A primeira vista, aos olhos das pessoas não familiarizadas com os estudos espíritas, poderia parecer algum tipo de pregação cruel que não valorizasse, ou mesmo desprezasse os despojos carnais. “Nossa, então os espíritas não ligam importância ao corpo?” Poderiam, assim, questionarem-se alguns, preocupados, antes de mais nada, em desqualificar o Espiritismo e os espíritas em nome de interesses de religião ou, até mesmo, contra a noção de religião, no caso daqueles que não acreditam em Deus e na sobrevivência da alma ao fenômeno biológico chamado morte. O desenvolvimento do tema, no entanto, nos fará ver que não se trata de qualquer anormalidade, desde que tenhamos o referencial de nossas vidas na idéia de Deus e da imortalidade da alma.

            Para iniciarmos a análise, citamos a passagem evangélica que inspirou o tema:

Disse a outro: Segue-me; e o outro respondeu: Senhor, consente que, primeiro, eu vá enterrar meu pai. - Jesus retrucou: Deixa aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus. (S. Lucas, 9:59-60)[1]

            À primeira vista, parece-nos uma atitude cruel da parte de Jesus solicitar a alguém que o seguisse ainda que tivesse que deixar para trás o sepultamento do corpo de seu pai. A tradição do Judaísmo possui um ritual religioso de preparação do corpo para o sepultamento, a Taharah[2], onde é realizada a limpeza física dele, além de envolvê-lo em uma mortalha simples, da cor branca e composta por linho comum. Além disso, são realizadas preces por aquele que morreu, pendido perdão a Deus pelos pecados que ele possa ter cometido e que ele possa alcançar a paz eterna. Estas informações foram obtidas mediante pesquisa breve na internet, o que pode nos levantar a seguinte questão: “Se esse ritual é preconizado nos dias de hoje, terá sido sempre assim entre os judeus?” Não sou especialista em História do Judaísmo ou dos Judeus, aliás, nem aprecio muito essa categoria de “especialista”, que tenta “cavar” um lugar de autoridade para aquele que é chamado a opinar, quase que o colocando como “dono da verdade”. Entretanto, a tomar pelo zelo com que os Judeus procuram manter suas tradições, é possível que tenham sido, à época de Jesus, esses os rituais fúnebres ou, pelo menos, minimamente semelhantes. Estaria, então, Jesus, insurgindo-se contra o piedoso hábito de dar tratamento digno aos mortos?

            Nos dias de hoje, muita gente almeja ser “celebridade”! Ser famoso (a), ter seus momentos de fama, quando não uma vida inteira. Perseguições de fotógrafos em todos os locais que freqüenta. Idolatria de sua personalidade por jovens e adultos. Arrastar multidões por onde passa. O projeto de vida de alguns, nos dias de hoje, é ser a celebridade do pagode, do futebol, da TV. A mídia, aliás, estimula esse desejo nas pessoas, na medida em que alimenta, em que tenta “pintar” um quadro de satisfação pessoal para essas celebridades. Esse movimento midiático vende produtos, porque diz de um modo de viver que traria felicidade pessoal. Aí se deseja o brinco da atriz da novela das oito que passa as nove, por causa da classificação etária, que não a recomenda para menores de 10 ou 12 anos. Deseja-se, também, ter a popularidade do galã principal com as mulheres. São copiados estilos de vida, maneiras de se comportar e vestir. Lembram-se dos famosos “bordões”, que viram verdadeira febre e são repetidos à exaustão? Graças a Deus não lembro, agora, de nenhum. Essa introdução toda para questionar: Como será a desencarnação dessas celebridades? Como serão os primeiros momentos no mundo espiritual daqueles que são idolatrados e que, por uma questão ética, nem sempre mereceriam semelhante idolatria?

            Pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, temos a narrativa dos momentos que se seguiram à desencarnação de Irmão Jacob, pseudônimo de Frederico Figner, ex-diretor da Federação Espírita Brasileira, atuante no Movimento Espírita na primeira metade do século XX.

Grande movimentação de gente se fizera em volta do lar onde meus olhos de carne se haviam cerrado para sempre.

Natural atração me impulsionava a entrar, precipitadamente. O campo doméstico reclamava-me o espírito qual poderoso imã. Entretanto, forças desconhecidas compeliam-me a retroceder. (...)

As projeções mentais da maioria de nossos amigos, aqui congregados, formam energias contraditórias, entre si. Alguns discutem e muitos pensam de maneira inadequada ao respeito que devemos a um companheiro em transe. (...) Você ainda se acha na condição do pássaro mal saído do ninho, incapaz de voar livremente.  (...)

Recomendou Bezerra ao Irmão Andrade e Marta me assistissem, enquanto cortaria o laço que, de certa forma, ainda me retinha às vísceras cadavéricas. (...)

Retornara a dispnéia. Se o leito estivesse à minha disposição, nele buscaria, sem delonga, refúgio reconfortante.

Marta ajudou-me, esclarecendo que a hora se caracterizava por muita ansiedade no coração dos entes que me consagravam sincera estima na Terra, que inúmeros pensamentos de angústia convergiam sobre mim e, por isso, eu devia resistir, garantindo tranqüilidade própria. (...)

Amargurado e aflito, qual me achava, ponderei os sofrimentos dos que abandonam a experiência física sem qualquer preparação. Se eu, que consagrara longos anos aos estudos espiritualistas, encontrava óbices tão grandes, que não ocorreria aos homens comuns, que não cogitam dos problemas relativos à alma? Ali, à frente de meus próprios amigos, sentia-me num torvelinho de contraditórias sensações. [3]

            Procuro imaginar, por isso, a desencarnação das celebridades do mundo, pessoas que assumiram destaque naquilo que faziam, enquanto encarnadas e que, por causa disso, angariaram grande número de ardorosos fãs e seguidores. Aquilo que o Espírito Irmão Jacob narrou em sua obra, deve ser potencializado enormemente. Mas esse é apenas um dos problemas possíveis.

            A fala de Jesus pode, também, aplicar-se a questão dos convencionalismos sociais. As ocasiões das vidas humanas passam a ser ritualizadas, protocolizadas e, por isso, perdem em sentimento e em naturalidade, que nos deveria caracterizar a todos. Na morte, por exemplo, não é difícil lembrarmo-nos dos preços dos sepultamentos dos corpos, principalmente se já se teve a experiência recente de se pagar a um. No segundo semestre de 2009, sepultar um corpo com simplicidade, na cidade do Rio de Janeiro, equivalia gastar-se algo em torno de R$: 1.500,00 (mil e quinhentos reais). Destes, apenas um caixão custava R$: 600,00 (seiscentos reais). Existem caixões que são verdadeiros espetáculos de luxo que, em última análise, sabemos desnecessário para aquela situação. Acolchoados, reluzentes... Para quê? O que está dentro apodrecerá! Mas, tenho a impressão, que se deseja ostentar. É demonstrar, com o caixão mais caro, com as flores em excesso, com a sofisticação, que se dispõe de dinheiro para ostentar, ainda que as justificativas, daqueles que financiam, não seja essa, em absoluto. Recordo-me do Espírito André Luiz que, num livro psicografado por Waldo Vieira, “Conduta Espírita”, nos diz que devemos

Dispensar aparatos, pompas e encenações nos funerais de pessoas pelas quais se responsabilize, abolir o uso de velas e coroas, crepes e imagens, e conferir ao cadáver o tempo preciso de preparação para o enterramento ou a cremação.

Nem todo Espírito se desliga prontamente do corpo. (...)

Transformar o culto da saudade, comumente expresso no oferecimento de coroas e flores, em donativos às instituições assistenciais, sem espírito sectário, fazendo o mesmo nas comemorações e homenagens a desencarnados, sejam elas pessoais ou gerais.

A saudade somente constrói quando associada ao labor do bem. [4]

            Nos comentários de Kardec temos uma informação que, para os espíritas, é ponto pacífico, que todos concordam sem dificuldades, mas cuja vivência pessoal é problemática. “A vida espiritual é, com efeito, a verdadeira vida, é a vida normal do Espírito, sendo-lhe transitória e passageira a existência terrestre, espécie de morte, se comparada ao esplendor e à atividade da outra.” [5] Parece uma questão de fácil entendimento. Pode até ser. Racionalmente admitirmos, tudo bem. Mas na vida prática, na vida de relação, no nosso cotidiano, não nos comportamos como se fôssemos Espíritos portadores de um corpo. Vivemos, lamentavelmente, operando na lógica contrária. Comportamos-nos como se fôramos apenas ter dispor dessa única oportunidade. Não sei se já tiveram oportunidades de reparar, mas os templos religiosos, nos dias de hoje, quando cheios, a maioria das pessoas são de idosos. Claro que, entre estes, contam-se pessoas que viveram, durante largo tempo, na religião. Mas... Quantos seriam aqueles que, somente nos últimos anos de existência, recorrem à religião para confortarem suas vidas? Notamos que muitas Igrejas protestantes, e até a católica, possuem grande número de jovens. No entanto, também através de observações e, também, por experiência pessoal (porque já fui católico), muitos jovens que ali estão o fazem por uma questão... Social. Reunião social. Acho, aliás, este um perigo para todos os religiosos. Começar a transformar o local de encontro religioso em “point”.  Ir à Igreja porque os amigos vão. Fazer catecismo ou crisma porque os amigos fazem ou fizeram. Conhecemos jovens que se pautaram, neste aspecto, pela conduta dos outros. Essa postura, de transformar o espaço de orações, seja qual seja, em “point”, diz muito de nossa pouca identificação com a vida espiritual, com um comportamento verdadeiramente cristão, independente de denominação religiosa.

            A vida material é um relâmpago, de tão rápido que passa. À medida que envelhecemos, parece-nos que o tempo escorre ainda mais depressa. Nas oportunidades que tive de conversar com anciãos, no Hospital onde trabalho, sempre que eles informavam a idade, eu lhes perguntava: “Passou rápido?” Não lembro um que tenha dito que não. E sempre o fazem com melancolia. Se levamos em conta, os que não sofremos de distúrbios do sono, que levamos, segundo os vendedores de colchões, um terço de nossas vidas dormindo, o tempo se encurta ainda mais. Penso que quando atinjamos o entendimento da nossa realidade de Espíritos eternos em transe provisório na carne, aproveitaremos mais o tempo. Assim Chico Xavier referia-se ao tempo, sobre os seus 56 anos de mediunidade, em 1984.

(...) por muito que se dê ao trabalho no bem, a gente nunca dá o que devia e eu não dei tanto tempo assim...

O tempo disponível, os Espíritos Amigos ocuparam com a formação dos livros que conhecemos. Desde o ano de 1931, houve interrupção apenas nos anos de 33 a 34; todos os outros anos o trabalho dos Espíritos apareceu nos livros. Se eu não tivesse dado - porque eu não dei tempo nenhum - algum tempo aos Benfeitores Espirituais, o que que eu teria feito com o tempo?!... Talvez estivesse num Sanatório, num cárcere. (...) O tempo me livrou de muitas dificuldades na minha personalidade. Eles podaram em mim muitas dificuldades para que eu pudesse trabalhar com eles... [6]

            Sei que dificilmente teremos o aproveitamento de tempo de Chico Xavier que, numa outra ocasião, comparou seus anos de serviços a horas... A postura dele, no entanto, é a de quem compreendeu o significado do tempo aqui. Oportunidade de serviço, de crescimento moral e intelectual. Fora que essa compreensão de realidade redimensiona nossos infortúnios. Allan Kardec, ainda em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo “Meu reino não é deste mundo” nos diz que

A idéia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes conseqüências sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num país ingrato. [7]

            A vida presente é comparada, por Kardec, a uma espécie de “morte”, comparando-se com o esplendor da outra vida. Ou como a estada num país que nos desagrade. Chama a atenção, portanto, para a brevidade da experiência carnal em face do que nos espera enquanto Espíritos imortais, em trânsito pela evolução. “O corpo não passa de simples vestimenta grosseira que temporariamente cobre o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena, do qual se sente ele feliz em libertar-se.” [8] Essa certeza faz com que soframos menos os golpes da desencarnação de entes queridos, além de preparar-nos para a nossa, uma vez que começamos a eliminar “laços” que nos prendam à vida física e, no momento de nossa morte biológica, nossa desencarnação tende a ser mais rápida. O Espírito Delfina de Girardin, falando da desgraça real, diz que estas seriam as distrações que calam-nos a consciência, constituindo-se no ópio do esquecimento de nossas responsabilidades perante nosso aprendizado moral. Esclarecidos pelo Espiritismo,

Agireis então como bravos soldados que, longe de fugirem ao perigo, preferem as lutas dos combates arriscados à paz que lhes não pode dar glórias, nem promoção! Que importa ao soldado perder na refrega armas, bagagens e uniforme, desde que saia vencedor e com glória? [9]

            Kardec fala-nos que o respeito que votamos aos mortos não é inspirado pelo corpo, mas sim pela lembrança que o Espírito ausente nos infunde. Não sei se já notaram, mas parece que, intimamente, até as pessoas não reconhecidamente espíritas, admitem, inconscientemente, a existência do Espírito. Dizem “o corpo de fulano de tal será sepultado hoje...” Dando a entender que existe alguém ausente, que não está mais ali, animando aquele corpo. Fala-se da mesma maneira que se fala de um automóvel. “O carro do Paulo”. Ninguém confunde o carro com o Paulo, ao se referir a um dos dois. O dizer “o corpo de...” para mim é sintomático de uma crença não declarada, ou até inconsciente, na sobrevivência da alma. Faz parte de nosso DNA divino!

            Através da mediunidade de Chico Xavier, Emmanuel faz alguns comentários a respeito dessa passagem evangélica. O livro em que comenta isso é um velho conhecido nosso de início de reuniões públicas. No “Fonte Viva”, numa página intitulada “Acorda e ajuda”, o autor espiritual chama-nos atenção para o fato de que Jesus não nos teria recomendado deixar aos cadáveres a tarefa de sepultar os cadáveres, apontando diferenças. Para ele,

O cadáver é carne sem vida, enquanto que um morto é alguém que se ausenta da vida.

Há muita gente que perambula nas sombras da morte sem morrer.

Trânsfugas da evolução, cerram-se entre as paredes da própria mente, cristalizados no egoísmo ou na vaidade, negando-se a partilhar a experiência comum. [10]

                Seriam, dessa forma, indivíduos sepultados na riqueza, no vício, no desalento e na ilusão. E estas são, verdadeiramente, sepulturas de encarnados, que os mantém aí enquanto estes deveriam utilizar-se da potencialidade de filhos de Deus em evolução para desenvolverem-se. Em última análise, são indivíduos viciados na riqueza, no desalento, na ilusão e no próprio vício, seja de que natureza for. O sujeito não se considera capaz de romper o vínculo com o vício, que lhe traz, ao que parece, uma espécie de “segurança psicológica”. Faz-nos lembrar da história, contida no Antigo Testamento, da mulher de Lot. Este, que era justo, fora advertido que deveria sair com sua família da famosa Sodoma. Lot acolhera dois estrangeiros, o que naquela região seria proibido, saindo em defesa deles. Na verdade, estes seriam anjos que ali estavam para destruir a cidade. Antes, recomendaram-lhe que daí se retirasse, com sua mulher e suas duas filhas, sem que pudessem olhar para trás. A poetiza russa   Anna Akhmátova conta-nos assim essa passagem

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,

alto e brilhante, pelas negras montanhas.

Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:

"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar

as rubras torres da tua Sodoma natal,

a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,

as janelas vazias da casa elevada

onde destes filhos ao homem amado".

Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,

seus olhos nada mais puderam ver.

E converte-se o corpo em transparente sal

e os ágeis pés no chão enraizaram-se.

Quem há de chorar por essa mulher?

Não é insignificante demais para que a lamentem?

E, no entanto, meu coração nunca esquecerá

quem deu a própria vida por um único olhar. [11]

E o passado, e o apego transformaram a mulher de Lot numa estátua de sal. As propriedades do sal já conhecemos. Serve para conservar, como para temperar. O vício solicita-nos que o conservemos. E cultivamos nossas algemas, que nos prendem ao círculo de reencarnações inferiores. No filme Nosso Lar, há uma frase significativa: “Quantos anos são necessários para recuperar um instante?” Quantas oportunidades perdemos, porque congelados nos nossos pontos de vista, nas nossas vaidades, nas nossas visões de mundo, das quais não abrimos mão para olhar a realidade que nos cerca? É claro que na atividade que desempenhamos na Casa Espírita estamos cheios do nosso passado. Somos a resultante de nossas ações, de um passado recente e de um passado distante. Passado que é acionado quando vivemos, porque é representativo das nossas vivências pessoais, ainda que, quase sempre, pouco felizes. Damos o que temos. Se temos séculos de comprometimento com o erro, com o crime, com os deslizes morais em diferentes encarnações, é evidente que o somatório dessas experiências venham a tona no momento em que vivemos ocasiões de praticar, novamente, os erros do passado. O Divaldo Franco conta de um menino que acolheu em sua instituição que fabricava facas com qualquer pedaço de metal. Quando questionado porque disso, ele dizia sentir saudade do sangue quente escorrendo em suas mãos... As lembranças podem não nos vir dessa maneira, mas nos virão na forma de conduta a adotar diante de situações específicas, quase sempre delicadas. Reagimos, quando deveríamos agir. Ofendemos, quando devíamos esperar mais um pouco, para não falarmos irritadiços. É o nosso passado que vem à tona. Somos debutantes no bem, começamos há pouco. Mas, graças a Deus, não somos maus. Estamos sendo maus. O que está sendo está em mudança. Somos seres inacabados, criados simples e ignorantes, com as ferramentas do nosso progresso moral em nossas mãos.  

Emmanuel conclama-nos, então

Aprende a participar da luta coletiva.

Sai, cada dia, de ti mesmo, e busca sentir a dor do vizinho, a necessidade do próximo, as angústias de teu irmão e ajuda quanto possas.

Não te galvanizes na esfera do próprio “eu”.

Desperta e vive com todos, por todos e para todos, porque ninguém respira tão somente para si.

Em qualquer parte do Universo, somos usufrutuários do esforço e do sacrifício de milhões de existências.

Cedamos algo de nós mesmos, em favor dos outros, pelo muito que os outros fazem por nós. [12]

            Dar de nós. Integrarmo-nos no mundo. Estar no mundo é isso. É participar, interagir, transformar a realidade para melhor. Ser “um instrumento da paz” onde estivermos. É tão pouco o que se tem a fazer e, para nós, tão difícil! Pequenas ações. Pequenos gestos. A missão do milímetro, porque a missão quilométrica é do Francisco de Assis, do Gandhi, de Paulo de Tarso e de outros.

            A introdução do livro “Cartas e Crônicas”, de Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Irmão X, temos

Num belo apólogo conta Rabindranath Tagore que um lavrador, a caminho de casa, com a colheita do dia, notou que, em sentido contrário, vinha suntuosa carruagem, revestida de estrelas. Contemplando-a, fascinado, viu-a estacar, junto dele, e, semi-estarrecido, reconheceu a presença do Senhor do Mundo, que saiu dela e estendeu-lhe a mão a pedir-lhe esmolas.

O quê? - refletiu, espantado - o Senhor da Vida a rogar-me auxílio, a mim, que nunca passei de mísero escravo, na aspereza do solo?

Conquanto excitado e mudo, mergulhou a mão no alforje de trigo que trazia e enfrentou ao Divino Pedinte apenas um grão da preciosa carga.

O Senhor agradeceu e partiu.

Quando, porém, o pobre homem do campo tornou a si do próprio assombro, observou que doce claridade vinha do alforje poeirento. O grânulo de trigo, do qual fizera sua dádiva, tornara à sacola, transformado em pepita de ouro luminescente.

Deslumbrado, gritou:

- Louco que fui! . Porque não dei tudo o que tenho ao Soberano da Vida? [13]

            Que possamos, então, dar o nosso melhor ao Senhor da Vida. Devemos dar o máximo que pudermos, se não conseguirmos dar tudo, na certeza de que nossa condição verdadeira é a de Espíritos Imortais numa experiência física. Deixemos, portanto, aos mortos, o cuidado de enterrar os seus mortos e tratemos dos nossos interesses imorredouros.

 



[1] Citado por KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro, FEB, p.404. Grifos meus.

[2] Disponível em: http://www.chabad.org.br/ciclodavida/Falecimento_luto/falecimento/taharah.html Último acesso em 24 de Maio de 2011.

[3] XAVIER, Francisco Cândido. Voltei. Rio de Janeiro, FEB, 1949, p. 49 a 53. Grifos meus.

[4] VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. Rio de Janeiro, FEB, 2001, p. 125 e 126. Grifos meus.

[5] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Op. cit.,, p. 404.

[6] BACCELLI, Carlos A. À sombra do abacateiro. São Paulo, IDEAL, 1986, p. 107 e 109. 

[7] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Op. cit., p. 72. Grifos do autor.

[8] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Op. cit., p. 405.

[9] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Op. cit., p. 133.

[10] XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Rio de Janeiro, FEB, 2003, p. 319.

[11] AKHMÁTOVA, Anna. Disponível em: http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/pi/pi200354.htm Último acesso em 27 de Maio de 2011. Grifos meus. Sobre a autora temos disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anna_Akhmatova Última consulta em 27 de Maio de 2011.

[12] XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva, Op. cit., p. 320.

[13] XAVIER, Francisco Cândido. Cartas e Crônicas, p. 3. Disponível em: http://bvespirita.com/Cartas%20e%20Crônicas%20(psicografia%20Chico%20Xavier%20-%20espírito%20Humberto%20de%20Campos).pdf Último acesso em 27 de Maio de 2011.

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